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Quando a ansiedade não é o problema

  • Foto do escritor: Ricardo Lauricella
    Ricardo Lauricella
  • 17 de jan.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 18 de jan.

Ansiedade raramente é o problema.


Na maior parte das vezes, ela funciona como um sinal de alerta tardio de algo que já se deslocou muito antes de qualquer crise se tornar evidente. Ainda assim, é comum que ela seja tratada como a causa central do sofrimento, quando, na verdade, é apenas o sintoma mais audível de um desalinhamento mais profundo.


No consultório, o que aparece com frequência são pessoas que seguem funcionando.

Representação visual de equilíbrio psíquico e o nome da clínica Nos Eixos, simbolizando a integração junguiana.
Entre um eixo e outro. Terapia.

Produzem, entregam resultados, mantêm relações, cumprem expectativas. Do lado de fora, tudo parece em ordem. Por dentro, porém, algo essencial perdeu sustentação. O eixo interno que organizava escolhas, desejos e limites já não responde da mesma forma, mas a vida continua sendo vivida como se nada tivesse mudado.


Muitos chegam à análise nomeando esse desconforto como ansiedade. O processo, com o tempo, revela outra coisa: um descompasso entre quem a pessoa se tornou e as ferramentas psíquicas que ainda insiste em usar para viver.


O sintoma como sinal de alerta


Valores, vínculos e modos de agir que funcionaram por anos deixam de dar conta das exigências atuais da realidade. Não porque estavam errados, mas porque pertencem a uma etapa anterior da vida.


Esse tipo de angústia não indica uma falha de sistema. Indica crescimento. O sofrimento aparece quando a identidade antiga se torna estreita demais para a complexidade que a vida passou a exigir. A psique tenta avisar que o centro de gravidade mudou, enquanto o sujeito segue tentando se equilibrar em um ponto que já não existe mais.


Nesses momentos, a pressa por alívio costuma ser grande. Há uma demanda, muitas vezes implícita, para que algo devolva rapidamente uma sensação de normalidade. O trabalho analítico, no entanto, não opera nesse registro. Ele não se propõe a apagar o sinal nem a restaurar um equilíbrio que já ficou para trás.


A função da análise na reconfiguração do eixo


O papel da análise é sustentar a travessia. Permanecer no intervalo entre o sentido que se perdeu e a nova forma de estar no mundo que ainda não se apresentou. Esse intervalo costuma ser desconfortável, instável e silencioso. Mas é justamente nele que algo novo pode se organizar, sem ser imposto, acelerado ou artificialmente corrigido.


Nem toda ansiedade pede eliminação imediata.

Algumas pedem escuta, tempo e a possibilidade de reconhecer que o eixo mudou.



Ricardo Lauricella, jornalista. Analista junguiano em final de formação. Acompanha processos de travessia quando o eixo interno precisa ser reconfigurado.

 
 
 

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