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O cansaço de tentar ser bom

  • Foto do escritor: Ricardo Lauricella
    Ricardo Lauricella
  • 28 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

...E o longo caminho de volta à inteireza


Há um tipo específico de cansaço que não vem do excesso de tarefas, mas do excesso de ajuste.


Um esgotamento silencioso, difícil de nomear, que surge quando passamos tempo demais tentando manter tudo no lugar, o tom certo, a postura correta, a resposta adequada. Como se a vida exigisse equilíbrio permanente, sem inclinação, sem tropeço, sem ruído.


Vivemos sob uma curadoria constante. Das redes sociais aos discursos de autoaperfeiçoamento, aprendemos que existir é corrigir-se. Melhorar sempre. Eliminar falhas. Silenciar o que atrapalha. A perfeição aparece como promessa de pertencimento, e qualquer desvio passa a ser vivido como ameaça.


Mas a alma raramente colabora com esse projeto.


Ela cria sintomas, provoca rupturas, repete padrões. Não por sabotagem, mas porque algo nela perdeu o eixo. E insiste, à sua maneira, em ser escutada.


Nas sessões de análise (e fora delas) fica claro: não adoecemos por falhar demais, mas por sustentar por tempo demais uma forma de vida que não nos comporta.


O preço da bondade, o cansaço

Carl Jung condensou esse dilema numa frase que atravessa gerações como um incômodo necessário:

“Prefiro ser inteiro a ser bom.” 

Não porque a bondade seja um erro, mas porque, muitas vezes, ela se torna um disfarce.


Ser “bom” costuma significar ser aceitável. Adaptável. Funcional. Vestimos a persona do profissional confiável, do parceiro compreensivo, do adulto emocionalmente resolvido. E tudo aquilo que ameaça essa imagem: raiva, inveja, desejo, fragilidade, ambivalência, são empurrados para baixo, para longe da consciência.


É assim que a sombra se forma. Não como algo perverso, mas como aquilo que não teve permissão para existir.


Externamente, a vida pode até funcionar.


Internamente, algo começa a secar. Surge uma sensação difusa de falsidade, como se estivéssemos sempre representando. É o desgaste de sustentar uma máscara que não respira.


Ser inteiro não é estabilidade

A Psicologia Analítica não promete equilíbrio permanente. O que ela propõe é mais inquietante: totalidade.


Ser inteiro não é resolver conflitos, mas suportar a tensão entre os opostos. Não é alcançar um ideal, mas sustentar um processo.


A individuação não acontece em linha reta; ela se move em espiral, aproximando-se e afastando-se do centro, exigindo revisões constantes de quem acreditamos ser.


A força, quase sempre, nasce da ferida. A criatividade costuma emergir do caos que tentamos controlar. E o eixo interno não é fixo, ele precisa ser reajustado ao longo da vida.


Inteireza não é conforto. É fidelidade à própria complexidade.


Os nós que pedem tempo

tapeçaria bonita por fora mas um emaranhado por dentro

Há um momento decisivo em que deixamos de tratar nossos nós como falhas. Quando

suspendemos a pressa de resolvê-los algo muda.


Eles começam a falar.


Um sintoma de ansiedade pode ser menos um defeito e mais um aviso: algo na forma como você vive perdeu contato com o desejo. Uma crise profissional pode não ser fracasso, mas o colapso necessário de uma identidade que já não sustenta quem você se tornou.


Desatar nós não é eliminar. É compreender a trama. Como numa tapeçaria, o desenho só existe porque o avesso, com seus fios soltos e emaranhados, o sustenta.


Voltar ao centro

Se você sente que passou tempo demais tentando ser apenas a versão aceitável de si mesmo, talvez não seja hora de melhorar. Talvez seja hora de retornar.


Não aos eixos que o mundo impôs, mas ao seu centro de gravidade original, aquele que não exige performance constante.


A terapia junguiana é esse espaço de retorno. Um lugar onde a perfeição fica do lado de fora para que algo mais verdadeiro possa entrar. Onde não se trata de corrigir quem você é, mas de escutar o que ainda não pôde ser vivido.


A pergunta não é se você está vivendo bem, mas se está vivendo inteiro.


Ricardo Lauricella, jornalista. Analista junguiano em formação. Escutando o que emerge no cansaço.

 
 
 

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