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Como você desenharia o seu analista? Imaginação ativa

  • Foto do escritor: Ricardo Lauricella
    Ricardo Lauricella
  • há 5 horas
  • 3 min de leitura

Em uma recente visita de pesquisa ao Instituto C. G. Jung Zurique-Kusnacht, na Suíça, deparei-me com uma obra que é um verdadeiro documento histórico da clínica analítica: Treasures from the Archive (Tesouros do Arquivo). O livro traz a público centenas de desenhos e pinturas originais criados por pacientes de análise entre 1917 e 1955.


Treasures from the Archive 

Muito além do valor estético, essas imagens servem como um testemunho vivo e perfeitamente preservado de como o inconsciente projeta seus mitos, seus complexos mais sombrios e, eventualmente, seus símbolos de cura.


A Imaginação Ativa como contorno do trauma

Na história da psicologia analítica, a expressão artística nunca foi tratada como mero passatempo ou "arteterapia" recreativa. Foi o próprio Carl Jung quem descobriu, a partir de suas dolorosas experiências registradas no Livro Vermelho, que dar contorno, cor e personificação às fantasias era uma via régia para processar traumas que a linguagem verbal não conseguia alcançar.


Quando a palavra falha, a mão desenha. Essa técnica, que mais tarde foi formalizada como Imaginação Ativa, consistia em permitir que os conteúdos do inconsciente ganhassem uma forma visível. Ao objetificar a dor no papel, o ego do paciente ganhava uma distância segura para dialogar com seus próprios monstros, impedindo que fosse devorado por eles.


O arquivo 034 BHAW: O pânico traduzido em carvão


página de livro

Dentre a vasta coleção do arquivo de Zurique, um caso chama a atenção pela crueza e precisão clínica. Sob o código institucional 034 BHAW, encontram-se os registros visuais de uma paciente holandesa atendida pessoalmente por Jung na década de 1930. Ela sofria de crises agudas e violentas de pânico. Algo como um colapso psíquico que paralisava sua existência.


O desenho em carvão que ela produziu durante o processo (e que ilustra este estudo) afasta-se imediatamente de qualquer tentativa de produzir uma "arte bonita" ou reconfortante. É um rastro visceral, escuro e denso.


No centro da imagem, vemos uma figura feminina esguia, completamente obscurecida, cercada por corpos caídos e desfigurados. Segundo os diários clínicos do caso, essas figuras rastejantes representavam os complexos neuróticos da paciente que haviam colapsado: os cadáveres de uma bruxa, de uma prostituta e de uma múmia. O seu inferno pessoal estava escancarado em preto e branco.


Quando o analista vira luz (e raposa)

No entanto, o verdadeiro "ouro" desse arquivo reside na gigantesca silhueta luminosa que emerge logo atrás da paciente, segurando firmemente os seus braços.


Aquela silhueta de luz é o próprio Carl Jung.


O que a paciente desenhou ali foi a ilustração mais pura e explícita do fenômeno da transferência de que se tem notícia na história da psicologia. Na escuridão da sua neurose, incapaz de conter o pânico, ela projeta na figura do terapeuta o arquétipo da chamada "personalidade mana": a autoridade arquetípica, o xamã, o detentor da luz da consciência que impede que ela desabe no abismo. Jung empresta a sua estrutura psíquica para conter o transbordo dela.


Mas o inconsciente é refinado e cruelmente honesto. Se você observar atentamente a testa da figura luminosa de Jung, notará o desenho sutil de uma raposa. A paciente capturou ali, de forma genial, o lado trickster de Jung: o mestre provocador, astuto e pregador de peças, cuja função clínica não era acalentar o ego da paciente, mas subverter suas certezas para que a psique pudesse finalmente se movimentar.


A análise não é um manual de regras

A análise contemporânea frequentemente adoece pelo excesso de pragmatismo.


Tentam transformar o encontro clínico em um bate-papo intelectual ameno, em um manual de regras corporativas de autoajuda ou em metas de bem-estar para o próximo trimestre.


O arquivo 034 BHAW nos lembra do oposto: a análise é um campo de força psíquico. É um espaço de alta voltagem onde o analista, despido de vaidades pedagógicas, precisa às vezes emprestar o próprio corpo, a própria presença e a própria luz para que o paciente não se perca definitivamente no próprio inferno.


Dar nome e contorno ao indizível continua sendo o trabalho mais urgente da clínica.


O livro "Treasures from the Archive" (Editora Chiron Publications / C.G. Jung Institute Zurich) pode ser consultado na biblioteca do Instituto em Kusnacht ou adquirido em livrarias internacionais.


Ricardo Lauricella, Analista Junguiano que acreditava não saber desenhar.



 
 
 

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