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Homens, a coragem de buscar análise

  • Foto do escritor: Ricardo Lauricella
    Ricardo Lauricella
  • há 17 horas
  • 2 min de leitura

Muitos homens percebem o consultório como um campo de batalha onde a identidade corre o risco de ser reduzida à fragilidade. Isso acontece pela identificação absoluta com a Persona do herói inabalável, uma máscara defensiva que protege o ego do mundo externo enquanto pode acabar se isolando da própria verdade. Estudo publicado pela Psychiatric Times em março de 2026 expõem o abismo dessa negligência, revelando que apenas 7,2 por cento dos homens participam de processos terapêuticos. O número contrasta com os 11,7 por cento de adesão feminina. Este silêncio estatístico materializa o custo de uma cultura que prefere o colapso à ilusão de que o controle sobre a psique é absoluto.


Robert Bly, na obra João de Ferro, associa essa condição à ausência de uma iniciação que ensine o homem a dialogar com sua ferida. Sem o contato com o homem selvagem, símbolo da energia vital soterrada por uma civilidade rígida, o masculino moderno torna-se uma casca produtiva e oca. A terapia (análise) atua como esse rito de passagem contemporâneo. Ela exige a retirada da armadura para encarar o que foi rejeitado, transformando sintomas como a raiva crônica ou o esgotamento em uma linguagem finalmente compreensível.


O espaço analítico funciona como um espelho das engrenagens da alma. Nele, o analista sustenta o silêncio necessário para que a vulnerabilidade seja integrada à totalidade do ser. O amadurecimento psíquico depende desse enfrentamento ético com a própria singularidade. Como ensina Carl Jung:


"Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando tornar-se o próprio si-mesmo."

São diversos os homens que buscam o processo apenas no limite da exaustão, quando os pactos inconscientes com o sofrimento já comprometeram carreiras e afetos. A procura por auxílio preventivo constitui uma demonstração de inteligência existencial. O sujeito que se propõe à análise deixa de reagir aos impulsos de forma automática para habitar a própria história com autonomia. A liberdade psíquica emerge no intervalo entre o desejo de controle e a aceitação de que a vida exige transformação constante.


Ricardo Lauricella, Analista Junguiano e homem que se confronta em análise há 27 anos.


 
 
 

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