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Por que 78% das vítimas de suicídio são homens?

  • Foto do escritor: Ricardo Lauricella
    Ricardo Lauricella
  • 9 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 17 de jan.

Uma reflexão junguiana sobre a crise da masculinidade e o silêncio interior

homem com luz e sombra

Esses 78% são o eco de um grito silencioso. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil está entre os países com maior número de suicídios, e cerca de 78% das vítimas são homens. Globalmente, um homem morre por suicídio a cada quarenta segundos.


Esses números não falam apenas de estatísticas, mas de uma ferida profunda na psique coletiva masculina. Para a psicologia analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, o suicídio é, muitas vezes, o sintoma extremo de uma alma em guerra consigo mesma — o colapso entre o que o homem é e o que acredita que deveria ser.


A Persona do provedor e a armadura inquebrável

A sociedade molda máscaras. Uma das mais resistentes é a do homem herói, forte, provedor e inabalável. Jung chamaria essa máscara de Persona — a face que mostramos ao mundo. Ela é necessária para viver em sociedade, mas torna-se perigosa quando o homem acredita ser apenas ela.


Desde cedo, ele é ensinado a vestir essa armadura. Aprende que vulnerabilidade é fraqueza, que o choro é inadmissível e que o fardo deve ser carregado sozinho. Torna-se o pilar, a rocha, o suporte de todos.


Mas toda armadura que protege também aprisiona. Ao se identificar por completo com a Persona do herói, o homem se desconecta da própria humanidade, negando aspectos essenciais de si mesmo.

“Aquilo a que resistimos, persiste. Aquilo que aceitamos, nos transforma.”— Carl Gustav Jung

O homem dividido: a crise de identidade contemporânea

A velha armadura do “homem antigo”, provedor e viril, já não serve mais sozinha no mundo atual. Ao mesmo tempo, surge um novo modelo: o “homem moderno”, sensível, empático e desconstruído. É entre esses dois extremos que muitos homens se perdem.


Recebem mensagens contraditórias: seja forte, mas mostre seus sentimentos; seja assertivo, mas não seja tóxico; seja provedor, mas esteja emocionalmente disponível.


Tentam equilibrar papéis que parecem se anular. O resultado é uma paralisia silenciosa, uma sensação crônica de inadequação. O homem contemporâneo sente que falha nos dois mundos — não é mais o antigo, e ainda não sabe como ser o novo.


A Sombra: o grito dos homens que não pudemos ser

Essa divisão interior faz crescer a Sombra, o lado oculto da psique. A Sombra não contém apenas medo e dor, mas também tudo aquilo que foi reprimido. O homem que tenta ser o sensível “moderno” pode esconder sua força, sua agressividade, sua ambição. O que se agarra ao modelo “antigo” esconde sua vulnerabilidade e necessidade de afeto.


A Sombra se torna o lugar onde habita o outro homem — aquele que ele foi proibido de ser. É nesse porão que se acumulam as vozes caladas, as emoções interditas, as partes renegadas. Quando essa cisão se prolonga, surgem a depressão, a ansiedade e, em casos trágicos, o impulso de desaparecer. O suicídio, nessa perspectiva, é a consequência extrema de uma psique fragmentada que não suporta mais a própria divisão.

“A tarefa do homem moderno não é destruir seus demônios, mas dialogar com eles.”— Robert Bly, João de Ferro

A crise de sentido e o homem que perdeu a alma

Quando a identidade se apoia em apenas um polo — o antigo ou o moderno — o homem fica vulnerável. A crise não vem apenas da perda do emprego ou da pressão social. Ela nasce da incapacidade de sustentar a complexidade da própria alma. A Persona se quebra, e o que resta é o vazio de não saber mais quem se é.


A psicologia junguiana chama isso de perda da alma. A alma anseia por totalidade, não por extremos. A desesperança que precede o suicídio é, muitas vezes, o grito de uma alma que já não encontra sentido em viver dividida. A saída não está em escolher um dos lados, mas em reconciliá-los — tornar-se o homem inteiro.


O caminho da individuação: quebrar o silêncio dos homens sobre o suicídio

Se o aprisionamento na Persona é o caminho da dissociação, o retorno à alma se dá pela individuação, o processo de tornar-se quem se é de verdade. Para o homem contemporâneo, isso significa integrar os opostos: reconhecer o protetor e o sensível, o forte e o vulnerável.


Entrar em si mesmo não é um gesto de fraqueza, mas de coragem. Buscar terapia não é um atestado de fracasso, e sim o ato mais heroico de todos: o de descer ao próprio porão para resgatar o homem que ficou lá dentro.


Os números alarmantes sobre o suicídio masculino são um chamado coletivo à transformação. Precisamos de uma nova visão de masculinidade — uma que aceite a complexidade, que valorize a escuta, que permita a dor e que celebre a inteireza.


Falar é o primeiro passo. E talvez o mais corajoso.


O silêncio não precisa ser o fim. Se você se sente emaranhado ou sem rumo, existe um espaço seguro para reencontrar seu eixo. Agende uma sessão de terapia online.



Importante: Se você ou alguém que você conhece está passando por um momento de sofrimento intenso, não hesite em buscar ajuda. Ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188. A ligação é gratuita e sigilosa. Você não está sozinho.


Ricardo Lauricella, jornalista. Analista junguiano em formação. E defensor da coragem de descer ao próprio porão.

 
 
 

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