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A Arte de Desaparecer (e a coragem de não dar explicações)

  • Foto do escritor: Ricardo Lauricella
    Ricardo Lauricella
  • 10 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Hoje não! Não vou aceitar o seu convite, não vou jantar fora, não vou ao cinema, não vou para o happy hour. Parece agressivo? Talvez. Mas, às vezes, sinto que o mundo me puxa pelos braços com uma força que não combina com o meu ritmo interno. Uma força centrífuga. E é nesse pequeno descompasso que nasce a necessidade vital de sumir por umas horas. Como quem recolhe os próprios fragmentos no chão antes que eles caiam no bueiro para sempre.


A Ditadura da Justificativa

O problema é que isso causa uma culpa surda. Uma culpa antiga. Vivemos numa cultura que valoriza a sociabilidade como moeda de troca. Se você não está "disponível", você está errado. Defeituoso. Por isso, raramente conseguimos ser diretos. Sentimos uma obrigação atávica de nos justificar. Inventamos desculpas "respeitáveis". Dizemos que temos "trabalho atrasado", que surgiu "um imprevisto", que estamos doentes.


Por que fazemos isso? Porque temos medo. Medo de que, ao dizer "não quero", o outro ouça "não gosto de você".


Medo de sermos esquecidos se sairmos do palco por um segundo. Mas a verdade é menos nobre e mais profunda: o mundo entra na gente numa velocidade que não conseguimos digerir. Engolimos emoções, olhares, julgamentos e ruídos sem mastigar.


Esses "nãos" precisam ser normalizados. O "não" precisa ser uma frase completa. Sem notas de rodapé. Sem anexos explicativos. Eu não preciso ter uma reunião importante para ter o direito de ficar em casa olhando para o teto. O meu encontro é comigo. E essa deveria ser a pauta mais urgente da agenda. E o mesmo contigo!


A Fraude do Celular (Estar Sozinho vs. Estar Conectado)

E aqui entra o paradoxo moderno. Muitas vezes, conseguimos ficar fisicamente sozinhos, mas cometemos o erro fatal: levamos o mundo para dentro do quarto através de uma tela brilhante. Isso não é solidão. Isso é ruído estático. Ficar no sofá rolando o feed do Instagram ou respondendo WhatsApp não é "desligar". É apenas mudar a frequência da ansiedade. Você continua consumindo a vida alheia, continua se comparando, continua performando uma presença digital.


O verdadeiro "ficar sozinho" exige coragem. Exige o tédio. Exige desligar o celular. Deixar a tela preta. O silêncio precisa ser analógico. Sem essa desconexão real, você não ouve os seus próprios tremores. Você não percebe onde dói. Você apenas anestesia o incômodo com dopamina barata. É preciso encarar o vazio sem a muleta da notificação.


O Ciclo: Isolar para Pertencer

Entenda: eu não estou pregando o eremistismo. Não somos ilhas. O isolamento crônico é doença; a solitude pontual é cura. Há uma diferença abissal entre se esconder do mundo por medo e se recolher do mundo para recarregar. Sem pausa, viramos uma mistura ruidosa de tudo o que ouvimos. Perdemos a nitidez da nossa própria voz. Viramos um eco.


Precisamos do silêncio real para "desmisturar". Para separar o que me feriu do que me inspirou. Para entender que aquela angústia que senti na reunião talvez não fosse minha, mas projetada por outro. Para devolver ao mundo o que é do mundo, e ficar apenas com o que é essencialmente meu.


Ao se recolher, a gente não rejeita o outro. É apenas um ato de manutenção interna. Limpeza de disco. Eu me afasto, não para fugir de você. Mas para garantir que, quando eu voltar, seja realmente

quem está ali. Inteiro. Não um simulacro cansado tentando ser simpático.


Silêncio também é afeto. Talvez, a forma mais honesta de amor seja saber a hora de sair de cena para poder voltar melhor.


E você? Tem se permitido o luxo de desaparecer (inclusive do online) para se encontrar?


Ricardo Lauricella, jornalista. Analista junguiano em formação. E aprendiz da arte de desaparecer.

 
 
 

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